
Marco Reis · CEO e editor
Há dez anos estuda e aplica em renda fixa, renda variável e criptoativos, e escreve sobre os produtos que acompanha com o próprio dinheiro. Programador, construiu o site e as ferramentas de redação da Palácio dos Cartões, da qual é CEO. Também corre maratonas.
Na B3 há quatro opções principais de ETF de ouro: GOLD11 (XP Asset, replica o índice LBMA Gold Price, é o mais líquido, com volume médio diário acima de R$ 50 milhões), GOLB11 (BTG Asset, baseado em contratos futuros, taxa de 0,40% ao ano), GLDI11 (Itaú Asset, taxa de 0,40% ao ano, aplicação mínima de R$ 50) e GOLX11 (liquidez bem menor). Todos são tributados em 15% sobre ganho de capital apenas no resgate, sem come-cotas, mas o GOLD11 concentra a esmagadora maioria do volume negociado, o que o torna a opção com menor spread de compra e venda para quem entra e sai com frequência.
Quem quer se expor ao ouro pela B3 hoje não escolhe mais entre "comprar ou não comprar" o metal. Escolhe entre quatro estruturas diferentes de acompanhar o mesmo preço, com taxas, mecanismos de replicação e liquidez que não têm nada de parecido. A diferença não é cosmética: define quanto custa carregar a posição e, principalmente, quão fácil é sair dela sem perder dinheiro no spread. Este artigo compara GOLD11, GOLB11, GLDI11 e GOLX11 lado a lado, com os números na mão, para que a escolha seja sua.
Por que existem tantos ETFs de ouro na B3 e por que isso confunde o investidor
Até pouco tempo, ter exposição ao ouro em reais na bolsa brasileira era basicamente uma escolha única. Isso mudou rápido. A B3 negociou seu primeiro ETF de ouro do Brasil como o terceiro ETF internacional listado na bolsa, abrindo caminho para novas gestoras entrarem no segmento nos anos seguintes.
O resultado é que XP Asset, BTG Asset e Itaú Asset disputam hoje o mesmo tipo de investidor com produtos que parecem sinônimos à primeira vista. Todos "seguem o preço do ouro", mas usam mecanismos de replicação distintos, cobram taxas diferentes e têm liquidez muito desigual entre si. Esse movimento acompanha o crescimento geral da indústria de ETFs na B3, que chegou a 105 fundos listados em 2024, ante 26 em 2020. Quanto mais opções, maior a chance de comprar o produto errado para o próprio objetivo. Daí a importância de comparar antes de decidir.
GOLD11, GOLB11, GLDI11 e GOLX11: o que cada um faz de diferente
Antes de olhar taxa e liquidez, vale entender a engenharia por trás de cada ticker. A forma como o ETF constrói sua exposição ao ouro determina boa parte do comportamento do preço no dia a dia, e das diferenças que aparecem entre eles em momentos de estresse de mercado.
GOLD11: replica o índice LBMA Gold Price via XP Asset
O GOLD11, batizado oficialmente de Trend ETF LBMA Ouro e gerido pela XP Asset, busca acompanhar a variação do índice LBMA Gold Price, referência global mantida pela ICE que fixa o preço do ouro à vista em dólares duas vezes por dia, via leilão eletrônico. É a metodologia de precificação mais tradicional do mercado de ouro físico, usada por bancos centrais e refinarias no mundo todo. Isso dá ao GOLD11 um lastro conceitual sólido: ele tenta espelhar o preço à vista do metal, não uma expectativa de preço futuro.
GOLB11: exposição via contratos futuros de ouro (BTG)
O GOLB11, lançado pela BTG Asset como o primeiro ETF de futuro de ouro da B3, não compra ouro físico nem replica um índice de preço à vista. Ele monta a exposição por meio de contratos futuros do metal. Essa estrutura tem uma consequência prática que passa despercebida por muitos investidores: contratos futuros precisam ser "rolados" periodicamente, de um vencimento para outro, e essa rolagem pode gerar pequenos descolamentos entre o preço do ETF e o preço à vista do ouro. Algo que não existe na mesma intensidade em produtos atrelados a um índice spot como o LBMA.
GLDI11: ETF de ouro da Itaú Asset
O GLDI11 chegou ao mercado pela Itaú Asset com aplicação mínima a partir de R$ 50,00 e liquidação em D+2, posicionando-se como opção de entrada mais acessível para quem quer começar pequeno. A gestora entrou no segmento de commodities com esse lançamento, ampliando a concorrência num nicho antes dominado por poucos nomes.
GOLX11: outro ETF de ouro listado na B3
O GOLX11 também está listado como ETF de ouro na B3, mas com volume financeiro bem mais modesto: cerca de R$ 9,8 milhões segundo dados de cotação recentes, uma fração pequena do que movimenta o GOLD11. Na prática, funciona como alternativa de nicho, útil para quem já entende a diferença de liquidez e aceita o trade-off em troca de alguma outra característica do produto. Não é a porta de entrada natural para quem está começando a se expor ao metal.
Taxa de administração, aplicação mínima e liquidez: a tabela comparativa completa
Números concretos ajudam mais do que qualquer descrição qualitativa. Veja o que cada estrutura cobra e exige do investidor.
| ETF | Gestora | Como replica o ouro | Taxa de adm. | Aplicação mínima | Liquidação | Volume médio diário |
|---|---|---|---|---|---|---|
| GOLD11 | XP Asset | Índice LBMA Gold Price (preço à vista) | não informada nas fontes | não informada nas fontes | não informada nas fontes | R$ 52.390.798 (média de 6 meses; 10.536 negócios/dia) |
| GOLB11 | BTG Asset | Contratos futuros de ouro | 0,40% ao ano | R$ 100 | D+2 | não informado nas fontes |
| GLDI11 | Itaú Asset | não informado nas fontes | 0,40% ao ano | R$ 50 | D+2 | não informado nas fontes |
| GOLX11 | não informada nas fontes | não informado nas fontes | não informada nas fontes | não informada nas fontes | não informada nas fontes | cerca de R$ 9,8 milhões |
Tributação, igual para os quatro: 15% sobre o ganho de capital, cobrados apenas no resgate, sem come-cotas.
As células marcadas como não informada nas fontes são exatamente isso: as fontes primárias consultadas não publicam o dado. Preferimos deixar a lacuna visível a preenchê-la com estimativa — taxa de administração corrói retorno de forma silenciosa e composta, e um número errado aqui custa mais que um espaço em branco.
Taxa de administração de cada ETF
O GOLB11 cobra 0,40% ao ano de taxa de administração, com liquidação em D+2 e investimento mínimo de R$ 100. O GLDI11 pratica a mesma taxa de 0,40% ao ano, mas com porta de entrada mais baixa, a partir de R$ 50. As fontes primárias consultadas não trazem a taxa exata do GOLD11 nem do GOLX11: antes de aportar, vale conferir a lâmina de cada fundo diretamente no site da gestora ou da B3, já que taxa de administração corrói retorno de forma silenciosa e composta ao longo dos anos.
Volume médio diário e o que isso significa para o spread
O GOLD11 tem volume diário médio, numa janela de seis meses, de R$ 52.390.798,00, com quantidade média de 10.536 negócios por dia. Em levantamento anterior sobre os ETFs mais líquidos de 2024, o mesmo fundo, ali chamado de Trend LBMA Ouro, aparece com R$ 8.907 milhões de volume médio diário, atrás de gigantes como BOVA11 e SMAL11, mas ainda relevante frente a outros ETFs temáticos. Já o GOLX11 opera na casa de R$ 9,8 milhões, praticamente um sexto do volume do GOLD11 na comparação mais recente. Volume baixo não impede a negociação, mas amplia o spread entre preço de compra e venda, o que corrói retorno de quem opera com frequência ou precisa sair rápido do ativo.
Qual ETF de ouro tem mais liquidez para entrar e sair sem perder dinheiro no spread
Liquidez não é um detalhe técnico. É dinheiro saindo do bolso de forma invisível. Num ativo pouco negociado, o preço de compra fica mais distante do preço de venda, e essa diferença é paga pelo investidor toda vez que monta ou desmonta a posição, independentemente de o ouro ter subido ou caído.
O crescimento do interesse por ouro na B3 é recente e mensurável: o volume diário médio negociado em ETFs de ouro saltou 141,5% entre 2024 e 2025, de R$ 12 milhões para R$ 29 milhões, segundo levantamento da plataforma DataWise+, feito em parceria entre B3 e Neoway. Nesse período, o GOLD11 isoladamente já havia movimentado R$ 4 bilhões em 2025 até a data do levantamento, um volume que empequenece o de qualquer outro ativo de ouro na bolsa brasileira.
Para efeito de comparação, os BDRs de ETFs internacionais de ouro somados movimentaram apenas R$ 955 mil no mesmo período, uma fração irrisória frente ao GOLD11. O mesmo levantamento mostra quem está comprando: fundos de investimento lideraram com R$ 1,7 bilhão negociado, seguidos por investidores estrangeiros (R$ 934 milhões) e pessoas físicas (R$ 882 milhões). É um mercado ainda concentrado em poucos participantes institucionais, o que reforça a importância de escolher o ativo com liquidez suficiente para a própria estratégia: comprar e segurar por anos tolera menos liquidez do que entrar e sair com frequência.
Na prática, quem pretende girar a posição com regularidade, rebalancear carteira a cada trimestre, por exemplo, tende a sentir mais o spread em ativos como GOLX11 do que no GOLD11, simplesmente porque há menos gente do outro lado do negócio no momento da ordem.
Imposto de renda e come-cotas: como ETF de ouro é tributado frente a fundo cambial
Aqui está um dos pontos onde ETF de ouro se diferencia estruturalmente de outras formas de investir no metal. ETFs e BDRs de ouro listados na B3 não sofrem come-cotas: o Imposto de Renda de 15% incide uma única vez, sobre o ganho de capital, no momento do resgate, segundo análise da Nord Investimentos. Isso vale igualmente para GOLD11, GOLB11, GLDI11 e GOLX11.
A diferença fica clara na comparação com fundos abertos de ouro, classificados como multimercado. Esses fundos têm come-cotas semestral, mecanismo que antecipa parte do imposto duas vezes por ano e reduz o efeito dos juros compostos ao longo do tempo, conforme aponta a mesma fonte. Na prática, dois investimentos com retorno bruto idêntico no papel podem entregar resultado líquido diferente ao final de vários anos, simplesmente por causa da mecânica de tributação. O ETF listado em bolsa larga na frente nesse quesito específico, por adiar o recolhimento até o resgate.
Essa lógica de tributação sobre resgate, sem antecipação periódica, também aparece em outros produtos de renda fixa e variável negociados diretamente. Quem já comparou como funciona o Tesouro Selic da compra ao resgate reconhece a mesma ideia de imposto pago uma vez, ao final da posição.
ETF de ouro é a mesma coisa que ter ouro físico? Riscos de contraparte e câmbio
Comprar uma cota de ETF de ouro não é logisticamente o mesmo que guardar uma barra do metal no cofre. São dois riscos que merecem atenção separada antes de decidir qual estrutura faz sentido para o objetivo de cada investidor.
Exposição cambial embutida no preço
ETFs sem proteção cambial, caso do GOLD11 e de BDRs como o GLDX11, acompanham o ouro cotado em dólar, o que expõe o investidor simultaneamente à variação do preço do metal e à variação do câmbio entre real e dólar, segundo a Nord Investimentos. Na prática, o cotista pode ganhar dinheiro mesmo com o ouro estável, se o real se desvalorizar frente ao dólar no período, e perder dinheiro mesmo com o ouro subindo, se o real se valorizar o suficiente para compensar a alta do metal. Essa dupla exposição não é um defeito do produto, é uma característica estrutural que precisa entrar na decisão.
Risco de contraparte e custódia do lastro
Um ETF depende da gestora manter e operar corretamente o lastro que sustenta a cota, seja ouro físico custodiado, seja posição em contratos futuros geridos ativamente, como no caso do GOLB11. Isso introduz um risco de contraparte e de gestão que não existe para quem possui ouro físico em mãos ou em cofre próprio. Em contrapartida, o ouro físico impõe custos e riscos próprios: armazenamento seguro, seguro contra roubo, dificuldade de fracionar a posição e spread historicamente maior entre compra e venda no mercado de metal físico no varejo. Não existe opção sem trade-off aqui. O investidor troca um tipo de risco por outro, nunca elimina risco por completo.
Qual ETF de ouro escolher: liquidez alta, taxa baixa ou estrutura diferenciada
Os dados reunidos aqui não apontam para um "melhor ETF de ouro" universal. Apontam para critérios diferentes que pesam mais ou menos dependendo do perfil de quem investe. Quem prioriza liquidez para entrar e sair sem sofrer com spread encontra no GOLD11 o ativo com volume disparadamente maior entre os pares. Quem começa com pouco capital e valoriza aplicação mínima baixa tem no GLDI11 uma porta de entrada mais acessível, a partir de R$ 50. Quem entende a diferença entre replicação via índice spot e via contratos futuros, e aceita o risco de rolagem em troca de alguma característica específica da estrutura, pode considerar o GOLB11.
O ponto comum entre todos é a tributação: 15% sobre ganho de capital no resgate, sem come-cotas, o que já diferencia estruturalmente qualquer um desses ETFs de um fundo aberto multimercado de ouro. A decisão final, no entanto, cabe a quem investe, e deve considerar não só o retorno esperado do ouro como classe de ativo, mas também há quanto tempo a posição ficará parada e qual a tolerância a variações cambiais embutidas no preço. Para quem já avalia outras estruturas de renda variável negociadas em bolsa, vale entender também o que de fato se compra ao adquirir uma cota de fundo imobiliário: a lógica de comparar estrutura, taxa e liquidez antes de decidir se repete em praticamente qualquer ativo listado.
Perguntas frequentes
GOLD11 vale a pena para quem quer se proteger do dólar?
O GOLD11 não tem proteção cambial: ele acompanha o ouro em dólar, então o investidor fica exposto tanto ao preço do metal quanto à variação do câmbio. Isso pode ampliar ganhos ou perdas, dependendo do movimento do real.
Qual a diferença entre GOLD11 e GOLB11?
O GOLD11 replica o índice LBMA Gold Price, referência do ouro físico à vista, enquanto o GOLB11 usa contratos futuros de ouro. A estrutura diferente pode gerar descolamentos de preço em cenários de rolagem de contrato.
ETF de ouro paga come-cotas?
Não. ETFs e BDRs de ouro listados na B3 só recolhem 15% de imposto de renda sobre ganho de capital no momento do resgate, diferente dos fundos abertos multimercado de ouro, que têm come-cotas semestral.
Qual ETF de ouro da B3 tem mais liquidez?
O GOLD11 concentra a maior parte do volume negociado entre os ativos de ouro da B3, com média diária muito superior à do GOLX11 e dos demais concorrentes. Maior liquidez tende a significar spread menor entre compra e venda.
É melhor comprar ETF de ouro ou ouro físico?
O ETF elimina custos de custódia e transporte do ouro físico, além de ter liquidez imediata na bolsa, mas envolve risco de contraparte e taxa de administração recorrente. Ouro físico evita esse risco, porém tem spread maior na compra e venda e custo de guarda.
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A apuração parte de fontes primárias: Banco Central, Tesouro Nacional, IBGE, FGC, B3 e a legislação publicada no Planalto. Todo artigo publicado aqui traz pelo menos duas delas, listadas acima. A inteligência artificial entra como ferramenta em duas etapas, a pesquisa e a primeira versão do texto — é o que permite a uma redação pequena cobrir mais assunto sem abrir mão da conferência. Ela não assina e não decide: antes de publicar, o editor que assina o artigo lê, corrige e aprova, e a responsabilidade pela informação é dele.
