
Marco Reis · CEO e editor
Há dez anos estuda e aplica em renda fixa, renda variável e criptoativos, e escreve sobre os produtos que acompanha com o próprio dinheiro. Programador, construiu o site e as ferramentas de redação da Palácio dos Cartões, da qual é CEO. Também corre maratonas.
Tem gente que trata o Tesouro Direto como poupança turbinada, um produto único que "rende bem" e pronto. Não funciona assim. O que cai na sua conta no fim do período depende de três variáveis que costumam passar batido na hora da compra: a forma como a custódia é cobrada, a regra de Imposto de Renda vigente no momento em que você compra o título, e o patamar das taxas prefixadas, que hoje está historicamente esticado por causa do risco fiscal. Ignorar qualquer uma dessas três coisas distorce a comparação entre títulos, e entre o Tesouro e outras aplicações de renda fixa.
O Tesouro Direto é a compra de títulos públicos federais direto pela internet, com aplicação mínima de cerca de R$ 30 e liquidez diária no Tesouro Selic. Hoje incide taxa de custódia da B3 de 0,2% ao ano (isenta até R$ 10 mil no Selic) e Imposto de Renda regressivo de 22,5% a 15%, conforme o prazo de aplicação. Em julho de 2026, o Tesouro Selic rende Selic+0,07% a.a. e os prefixados giram entre 14,4% e 14,6% a.a., taxas historicamente altas por causa do risco fiscal.
O que é e como funciona o Tesouro Direto na prática?
Na essência, comprar um título do Tesouro Direto é emprestar dinheiro ao Governo Federal em troca de uma remuneração combinada previamente. Existem três famílias de título disponíveis para pessoa física: Tesouro Selic (pós-fixado, atrelado à taxa básica de juros), Tesouro Prefixado (taxa fixa definida na compra) e Tesouro IPCA+ (parte fixa somada à variação da inflação).
O Tesouro Selic pode ser resgatado a qualquer momento durante dias úteis e o investidor pode começar com apenas R$ 1,00. Na prática, porém, a maioria das corretoras trabalha com aplicação mínima em torno de R$ 30, já que a compra é fracionada a partir de uma porcentagem do valor total do título.
Os demais títulos, Prefixado e IPCA+, têm liquidez diária garantida pelo Tesouro Nacional, mas o preço de recompra antecipada oscila conforme as taxas de juros do momento, num mecanismo chamado marcação a mercado. Vender antes do vencimento pode gerar ganho ou perda em relação ao valor investido, mesmo tratando-se de um título de crédito soberano.
Quais são as taxas do Tesouro Direto hoje (custódia, IR e IOF)?
Três custos afetam o retorno líquido: a taxa de custódia da B3, o Imposto de Renda e, em resgates muito rápidos, o IOF.
- A taxa de custódia da B3 é de 0,2% ao ano, calculada sobre o valor dos títulos e provisionada diariamente.
- A partir de 31/12/2024, a cobrança da custódia passou a ocorrer apenas no vencimento do título, pagamento de juros semestrais ou resgate, não mais semestralmente. Isso muda o fluxo de caixa da cobrança, mas não o custo anual efetivo.
- Há isenção de taxa de custódia para Tesouro Selic até R$ 10 mil por CPF; acima disso, a taxa é cobrada apenas sobre o excedente.
- A maior parte das instituições financeiras tem oferecido taxa zero para aplicações em títulos públicos, então na prática o custo relevante costuma se resumir à custódia da B3.
- Nos títulos Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+ a regra é outra: a custódia só é cobrada nos resgates ou no recebimento dos fluxos mensais, com isenção de 6 salários mínimos no Renda+ e 4 no Educa+, e 0,10% ao ano sobre o que exceder.
- IOF só é cobrado em resgates de títulos em menos de 30 dias; acima disso, o IOF é zero.
Sobre o Imposto de Renda, a regra que vale hoje é a mesma de sempre: a tributação segue alíquota regressiva de 22,5% até 180 dias; 20% de 181 a 360 dias; 17,5% de 361 a 720 dias; e 15% acima de 721 dias. Quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor o desconto de IR, um incentivo direto ao investidor que planeja o resgate com antecedência.
| Tempo de aplicação | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 721 dias | 15% |
Vale detalhar o IOF, porque "menos de 30 dias" esconde o tamanho da mordida: a alíquota começa em 96% do rendimento no primeiro dia e cai gradualmente até 3% no 29º dia, zerando no 30º (Safra, 2025). Resgatar um título com poucos dias de aplicação pode consumir quase todo o ganho do período. É motivo suficiente para alinhar o prazo do título ao horizonte real do objetivo antes de comprar.
Um detalhe que muita gente esquece na hora de calcular o líquido: as taxas de custódia e administração não podem ser descontadas da base sobre a qual o IR incide. O imposto é calculado sobre o rendimento bruto, e a custódia é um custo à parte que reduz ainda mais o retorno líquido final.
Tesouro Selic, IPCA+ ou Prefixado: qual escolher em 2026?
Não existe título "melhor" de forma absoluta. Existe o título mais adequado ao objetivo e ao horizonte de tempo do investidor, e essa é uma decisão pessoal, que cabe a cada leitor avaliar com seus próprios critérios de risco.
| Tesouro Selic | Tesouro Prefixado | Tesouro IPCA+ | |
|---|---|---|---|
| Como remunera | Acompanha a taxa Selic | Taxa fixa, travada no momento da compra | IPCA + taxa real fixa |
| Vender antes do vencimento | Baixa volatilidade de preço no curto prazo | O preço cai se os juros subirem depois da compra (marcação a mercado) | Mesma exposição do prefixado: a proteção contra a inflação só é garantida até o vencimento |
| Custódia da B3, 0,2% ao ano | Isenta até R$ 10 mil por CPF; acima disso, incide só sobre o excedente | Cobrada — a isenção de R$ 10 mil vale só para o Selic | Cobrada — a isenção de R$ 10 mil vale só para o Selic |
| Para que costuma servir | Reserva de liquidez: dinheiro que pode ser preciso a qualquer momento | Travar um juro alto, para quem pretende carregar até o vencimento | Objetivo longo: aposentadoria, poder de compra ao longo de décadas |
| Imposto de renda e IOF | Iguais para os três: tabela regressiva de 22,5% a 15% conforme o prazo (ver a tabela de alíquotas mais acima), e IOF apenas em resgate antes de 30 dias. | ||
Tesouro Selic apresenta baixa volatilidade no curto prazo e é amplamente utilizado como reserva de liquidez, sendo a opção natural para quem pode precisar do dinheiro a qualquer momento ou não quer conviver com oscilações de preço.
Tesouro Prefixado oferece taxa fixa definida no momento da compra e tende a ser mais atrativo em cenários de queda dos juros futuros. O contraponto é o risco de marcação a mercado: se as taxas subirem depois da compra, o preço de venda antecipada cai.
Tesouro IPCA+ combina correção pela inflação com taxa real fixa e é indicado para objetivos de longo prazo, como aposentadoria ou proteção do poder de compra ao longo de décadas. Vale ver como o Tesouro IPCA+ funciona e para quem ele vale a pena antes de comprar, e por que essa proteção só é garantida até o vencimento.
Olhando adiante, o boletim Focus do Banco Central traz a expectativa do mercado: a previsão dos analistas para os juros até o fim de 2026 passou de 13,5% para 13,75% ao ano; para 2027 e 2028, a projeção é de 12% e 10,25% ao ano, respectivamente. Em cenário de expectativa de queda, Prefixados e IPCA+ tendem a ganhar atratividade relativa para quem pretende carregar o papel até o vencimento. Mas projeção do Focus é estimativa, não certeza, e desempenho passado não garante resultado futuro.
Vale notar o contexto atual: a taxa Selic meta está em 14,25% ao ano desde a reunião do COPOM de 17-18 de junho de 2026, e em julho de 2026, as taxas prefixadas giram em torno de 14,50% ao ano, com vencimentos mais longos em 2032 e 2037. Esse patamar reflete o prêmio de risco fiscal e eleitoral embutido nos preços, e não é garantia de que os juros vão continuar altos, nem de que vão cair. É apenas o retrato do momento.
Quanto rende o Tesouro Direto líquido de impostos e taxas?
Para ilustrar sem recomendar nada, vale olhar os números disponíveis em julho de 2026. Tesouro Selic 2031 apresenta rentabilidade de Selic + 0,0742% ao ano. Tesouro Prefixado 2029 oferecia rentabilidade de 14,41% ao ano em julho de 2026. Tesouro Prefixado 2032 oferecia rentabilidade de 14,62% ao ano em julho de 2026. Tesouro Prefixado com juros semestrais 2037 oferecia rentabilidade de 14,59% ao ano em julho de 2026.
Esses são retornos brutos. Para chegar ao líquido, é preciso descontar o IR conforme a tabela regressiva vigente na data da compra e depois abater a custódia de 0,2% ao ano (quando aplicável). Num Prefixado 2032 a 14,62% a.a., por exemplo, se o resgate ocorrer depois de 721 dias a alíquota de IR cai para 15% sobre o rendimento bruto, e a custódia reduz ainda mais o resultado líquido final. O cálculo exato varia conforme o valor investido e o prazo de permanência. Por isso os simuladores oficiais do Tesouro Direto são a ferramenta mais confiável para fazer essa conta na ponta do lápis.
Tesouro Direto rende mais que a poupança e o CDB?
O dossiê consultado não traz dados comparativos diretos de rentabilidade entre Tesouro Direto, poupança e CDB, então essa comparação numérica fica fora deste artigo. O que se pode afirmar com base nas fontes disponíveis é sobre o perfil de risco de cada instrumento.
O risco de crédito do Tesouro Direto é considerado baixo pois o pagamento é garantido pelo Tesouro Nacional, o que costuma ser citado como o menor risco de crédito disponível no mercado brasileiro. Já o CDB depende da saúde financeira do banco emissor, ainda que conte com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até os limites regulamentares. A poupança, por sua vez, tem regra de rendimento própria e liquidez imediata, mas não foi comparada numericamente no dossiê usado nesta análise. Cabe ao investidor pesar os riscos e as condições específicas de cada produto antes de decidir onde alocar recursos.
Como comprar, resgatar e declarar o Tesouro Direto?
A compra é feita pelo site do Tesouro Direto ou pela plataforma de uma corretora habilitada, depois de aberta a conta e feito o cadastro no sistema. O investidor escolhe o título, define o valor (ou a fração desejada) e confirma a operação, liquidada em dias úteis.
Para resgate, o Tesouro Selic pode ser vendido a qualquer momento em dia útil, com o valor caindo na conta em até um dia útil depois. Prefixados e IPCA+ também têm liquidez diária, mas o preço de venda antecipada segue a marcação a mercado, podendo ficar acima ou abaixo do valor aplicado.
Na declaração de Imposto de Renda, os títulos do Tesouro Direto entram na ficha de Bens e Direitos pelo valor de aquisição, e os rendimentos, tributados na fonte pela tabela regressiva de IR, já vêm descontados automaticamente no resgate, sem exigir apuração manual do investidor na maioria dos casos.
Como simular a rentabilidade líquida no simulador oficial?
Como as taxas do Prefixado e do IPCA+ mudam diariamente, e são atualizadas até três vezes ao dia pelo Tesouro Nacional, qualquer tabela de "quanto rende por mês" fixada em um artigo nasce defasada. O número que vale é o do simulador oficial, no site do Tesouro Transparente, no momento da consulta. Ele aceita o valor e o prazo e devolve a rentabilidade bruta e a líquida, já com o desconto de IR conforme o prazo escolhido.
O caminho, resumido:
- Escolher o título (Selic, Prefixado ou IPCA+) e o vencimento disponível.
- Informar o valor a ser investido e verificar o preço unitário do dia.
- Conferir a taxa anual oferecida naquele momento — que muda diariamente.
- Observar a projeção de rentabilidade líquida, já com o desconto estimado de IR pela tabela regressiva e, quando aplicável, a taxa de custódia.
Desconfie de decisão tomada com base em simulação antiga ou em captura de tela de terceiros. O número correto é sempre o da consulta de hoje, não o de um artigo publicado semanas atrás — inclusive este.
Perguntas frequentes
Qual o valor mínimo para investir no Tesouro Direto?
É possível começar com cerca de R$ 30, dependendo do título, já que a compra pode ser fracionada a partir de 1% do valor do título.
A taxa de custódia de 0,2% é cobrada mesmo no Tesouro Selic?
Sim, mas há isenção total para saldos de até R$ 10 mil por CPF em Tesouro Selic; acima disso, a taxa incide só sobre o excedente.
Perco dinheiro se resgatar o Tesouro Prefixado antes do vencimento?
Pode perder, pois o preço de venda antecipada segue a marcação a mercado e oscila com os juros; o Tesouro Selic sofre bem menos com isso.
Existe alguma mudança prevista na tributação do Tesouro Direto para 2026?
Por enquanto não. Uma proposta de unificar o IR em 17,5% para novas compras chegou a circular, mas a Medida Provisória que tratava do assunto perdeu a validade sem votação no Congresso. Isso significa que a tabela regressiva tradicional continua valendo também para quem compra títulos em 2026.
Quando o Imposto de Renda é descontado no Tesouro Direto?
Na fonte, no momento do resgate, do vencimento ou do pagamento de juros semestrais, seguindo a tabela regressiva de 22,5% a 15% conforme o prazo de aplicação.
Tesouro Direto tem garantia do FGC como o CDB?
Não precisa, pois o pagamento é garantido diretamente pelo Tesouro Nacional, considerado o investimento de menor risco de crédito do país.
history Histórico de atualizações
- 08 de setembro de 2026Duas tabelas onde antes havia prosa: as alíquotas do IR por prazo, que viviam numa frase corrida e incopiável, e a comparação estrutural entre Tesouro Selic, Prefixado e IPCA+, que o próprio H2 prometia e o texto entregava em parágrafos. Nenhum dado novo foi apurado nem alterado: as tabelas reorganizam o que já estava no artigo, e por isso o caption mantém 21/08/2026 como data de apuração.
- 21 de agosto de 2026Guia consolidado. Absorveu /tesouro-direto-simulacoes, que cobria o mesmo tema com título quase idêntico: entraram o passo a passo do simulador oficial, a custódia do Renda+ e do Educa+, o IOF regressivo dia a dia e as projeções do boletim Focus. A URL antiga passou a redirecionar para cá.
fact_check Como este artigo foi produzido
A apuração parte de fontes primárias: Banco Central, Tesouro Nacional, IBGE, FGC, B3 e a legislação publicada no Planalto. Todo artigo publicado aqui traz pelo menos duas delas, listadas acima. A inteligência artificial entra como ferramenta em duas etapas, a pesquisa e a primeira versão do texto — é o que permite a uma redação pequena cobrir mais assunto sem abrir mão da conferência. Ela não assina e não decide: antes de publicar, o editor que assina o artigo lê, corrige e aprova, e a responsabilidade pela informação é dele.
